Locutorio: E a justiça como testemunha
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E a justiça como testemunha

14.10.07


- Sua alteza, eu vou explicar pro senhor. Tudo começou na nossa lua de mel, há 20 anos, quando ele quis fazer sexo errado. Agora ele encontrou uma vagabunda que dá a bunda pra ele.

Quando o juiz perguntou, por formalidade, o motivo do pedido de divórcio, esperava qualquer coisa, menos isso. Ignorou ter sido chamado de alteza pela terceira vez ("minha senhora, eu sou juiz, não rei", tentara explicar) e, sem paciência, seguiu adiante com o ritual da separação oficial. Olhando para os dois, pergunta se existe alguma possibilidade de reconciliação.

- Existir, até existe. Mas, alteza, só se ele assinar um papel aqui na frente do senhor dizendo que nunca mais vai tentar comer nem o meu rabo nem o de nenhuma outra.

Sem acreditar, olhando para a pilha de processos acumulados e de sessões ainda marcadas para o dia, ele desiste. Passa, então, para o próximo item do processo: a divisão de bens. Lê em voz alta que eles moram numa casa própria, financiada em 15 anos e já quitada. Tem também um carro e o salário do marido. A proposta dela é ficar com a casa e dispensar o carro e uma eventual pensão.

- Só tem um problema, excelentíssima alteza. Eu não abro mão da minha geladeira vermelha, que combina com o piso da cozinha e foi presente de casamento, era da minha madrinha. E esse traste quer levar a geladeira com ele.

O juiz analisa os papéis, todo o imbróglio gira em torno da tal geladeira no momento. A "guarda" da geladeira. É a vez do homem, até então quieto e com a cabeça baixa, se pronunciar. O senhor gostaria de dizer alguma coisa, o juiz pergunta.

- Olha, eu só quero deixar bem claro que tudo o que ela tá falando aqui é mentira... E que eu não vou deixar a geladeira com ela.

Dez minutos de pausa. O juiz determina: a mulher fica com a casa e o marido com a geladeira. Dispensa os dois. Ela sai batendo pé com seus tamancos altos e balançando o cabelo loiro pintado. Ele segura a calça caindo e segue atrás dela.

No táxi que dividem até o bairro, ela ainda resmunga: sua alteza pode ter mandado, mas minha geladeira não sai de casa de jeito nenhum....

posted by Simone Iwasso
10/14/2007 12:27:00 PM

8 Comments:

Blogger Mariana said...

Que o juiz aprenda a lição: quem mandou perguntar??

14:40  
Anonymous Carol Moreno said...

Isso daria um curta fantástico!

15:14  
Blogger Ilis said...

a-do-rei.
mesmo mesmo mesmo!

16:31  
Anonymous dani. said...

haha muito bom! em briga de marido e mulher não se mete a colher, ainda mais se a questão for de foro tãaaao íntimo...

02:01  
Anonymous Fabio Chiorino said...

que recorte de cena...
bom demais...
a negociação da geladeira vermelha (que se não fosse vermelha, provavelmente não seria motivo de briga) é melhor que a discussão dos movimentos sexuais não-autorizados.
Beijo

18:38  
Blogger Robertson said...

Já não fabricam geladeiras vermelhas, a mulher está coberta de razão: sua Alteza que vá catar coquinhos! Não se mexe assim com a geladeira vermelha dos outros!

Obrigado por compartilhar conosco esses textos sempre geniais!

11:51  
Blogger Simone Iwasso said...

querido, quem agradece sou eu, pelo incentivo e pela leitura ;-)

13:41  
Anonymous Gabi said...

Si, ficou muito bom! Até parece real!
Beijinho

19:41  

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