Locutorio: O homem nomeia o mundo
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O homem nomeia o mundo

28.10.07


O primeiro presente que ganhou foi uma boneca. O primeiro que gostou foi a máquina de escrever vermelha. Uma mini-máquina. Compacta dentro de uma caixa. Foi na época em que já sabia o próprio nome e conhecia o alfabeto. Não demorou uma semana para virar brinquedo favorito.

No ano seguinte descobriu o dicionário. As folhas e folhas e folhas cheias de letras miúdas com explicação para tudo o que ela não sabia - para tudo o que tinha nome do mundo. Entendeu os sinônimos, antônimos. Acepções. Latim.

Tempos depois chegou nos manuais, nos livros de referências, nas infinitas enciclopédias. Formatadas, quadradas. Puro consenso. Definições assépticas e racionais sobre as grandes áreas do conhecimento. Foi quando apareceu o computador, a internet. Logo, o vestibular.

E a menina que buscava respostas no dicionário virou uma jovem universitária que carregava livros e arquivos digitais. Planificava saberes e sistematizava informações. Se transformou numa professora. Rígida e aplicada. Cercada de fórmulas dadas, copiadas e repetidas.

Mas chegou o dia em que sentiu uma coisa diferente. Foi procurar o que era. Faltou um verbete. Havia alguma coisa no mundo que não estava - não cabia - em nenhum dicionário, em nenhuma definição. Existia algo que ninguém conseguiu até então descrever. O mundo ainda podia surpreender.

Nesse dia, parou de ensinar. Tirou os sapatos e foi tomar sol na praia.

posted by Simone Iwasso
10/28/2007 10:52:00 PM

12 Comments:

Blogger Fernando Borges de Moraes said...

Como disse o Pereirinha citando Zizek que cita Lacan (ufa!) no "@topia" (link no meu blog), "a traição do desejo tem um nome: felicidade".
Nada é, a priore, irrelevante tendo a realidade a estrutura da ficção (Lacan, again). Fato é que se ser aquariano é ser um peixe fora d'água estou nessa, parceira!

01:37  
Anonymous paulo dauria said...

Sempre falta um verbete,
Ardendo em desejo feito estilete,
Feito o sol da praia,
A loucura há muito fora da raia!

É isso, inquietude, quietude, atitude!

Grande Beijo
Paulo DAuria

P.S.: A minha máquina portátil era laranja!

16:43  
Blogger S&amp;P said...

Eu tinha uma olivetti lettera verde, muito mais simpática que qualquer computador, mas sem blog...

12:58  
Anonymous dani. said...

aposto que era o amor, a paixão ou qualquer coisa parecida...
=)

14:15  
Blogger F. S. Júnior said...

o bom da vida são as descobertas... até mesmo aquelas que dizem que tudo aquilo que se descobriu até agora nem era tão importante assim... viver é bom! curtindo uma praia então... feliz daqueles que têm uma por perto... beijão

19:49  
Blogger Katia Abreu said...

também sinto falta de uns verbetes. mesmo conhecendo bem o dicionário. deve ser problema de aquariano he.

gostei daqui. virei mais vezes. :)

00:49  
Blogger Simone Iwasso said...

fernando, só vc pra dar profundida a um tema desses! adorei!

paulo, obrigada, mais uma vez

dani, será que era? nem eu sei...

beijo, júnior!

kátia, venha que será sempre muito bem-vinda. aquele seu texto ainda tá ecoando em mim!

00:57  
Blogger Alexandre said...

Tava para vir aqui faz tempo, aconteceu agora. Vim, surpresa daquelas grandes; fino, elegante,bem escrito e autoral. E com citações maravilhosas.
E um senhor cast de amigos.
Virei sempre; gosto de ver pensamentos. Alheios, melhores ainda.

16:45  
Blogger Simone Iwasso said...

Alexandre, to lisonjeada. Obrigada, mesmo. Vem sempre, fique à vontade. Vc tem blog também? Um beijo!

16:52  
Anonymous Fabio Chiorino said...

como um Forrest Gump que um dia ignora o universo circundante e busca a solidão como terapia para compreender outro (ou algum) sentido da vida. A diferença é que em vez de amarrar o tênis e sair correndo, desamarrou-o e buscou a sombra como refúgio.

17:31  
Blogger João Pedro de Andrade said...

Que angústia... Fiquei imaginando a situação. Não poder nomear algo. Isto para um virginiano praticante é realmente de dar medo...
Sim, eu vi o filme. E... Não sei. Pareceu bom. Mas é que o livro ainda estava muito presente. Daí fica bem difícil... E você? Viu? Leu? É uma história sobre mulheres, você há de convir. Algumas mulheres que conheço ficaram indignadas. Perguntavam: por que nós somos as loucas? Outras gostaram. Talvez porque Sofia não parecesse tão louca assim. E você? O que achou?

23:12  
Blogger Simone Iwasso said...

oi, joão
eu li e gostei demais, o livro foi me amarrando aos poucos. já o filme.... tenho muitas dúvidas - ele fica só na ação narrativa, né? bem raso, perde todo conflito e a densidade que tornam os personagens interessantes. quanto às mulheres, não saí com essa impressão que você colocou. pra mim, o que mostra é o quanto o rímini é fraco, se submete aos desejos das mulheres que encontra pelo caminho

obrigada pela visita,
um beijo!

17:37  

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