Locutorio: Dragões não conhecem o paraíso
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Dragões não conhecem o paraíso

26.11.07


Era uma tarde tão quente e calma que nos galhos das árvores nenhuma folha se mexia. Gato esticado na sombra, porteiro largado na guarita, lixo para ser recolhido. O ponto de ônibus vazio e os pedregulhos irregulares se esquentando na calçada, esperando um tropeço distraído. O café não chegava. Escorria calor e monotonia. O único movimento vinha daquela fumaça - névoa circular que colava na pele sem se desfazer... Mas nada disso tinha a ver com ele, ou melhor, só aqueles halos, de brasa incandescente, como descobri tarde demais.

Foi dele a iniciativa. Fez um gesto simples com a cabeça pedindo para sentar. Trazia a xícara na mão e uma revista dobrada debaixo do braço. Tinha cabelos desfeitos, um pouco grisalhos. Sorria sem mostrar os dentes, sinalizando um ar complacente, de paciência calculada. As mãos eram grandes e a pele, espessa. Quase sem piscar, mantinha o olhar sobre mim - um esverdeado brilhante, hipnótico.

Imóvel, escutei suas perguntas, comentários sobre qualquer coisa, indagações vagas sobre minha história. Naquela atmosfera de horas pausadas, de vida em suspensão, a pulsão de seus olhos vibrava pelo ar. No tempo de um arrepio, soube que tinha me perdido. Não veio o medo que deveria vir, não senti a repulsa que talvez sentisse, não me levantei. Permaneci. Não sei quanto tempo se passou até que veio o pedido, silencioso.Queria o meu sim - o que eu não diria, mas, já me deixando conduzir, disse.

Estávamos longe dali quando apertou minha mão. Estremeci. O calor intenso me deixou dormente. A respiração curta despejava vapores na minha boca, ditando o ritmo das minhas veias. Não demorou para seus dedos ásperos me percorrerem, para sua boca descobrir meu gosto, para a pressão ritmada do seu corpo me arrancar sussurros e gemidos. Sentia que se satisfazia, enquanto aumentava a vermelhidão em minha pele. Quando saciou a fome, queimou meu útero com seu sangue branco e morreu dentro de mim.

Dormiu encolhido. No dia seguinte foi embora. Voltou durante a noite. Continou assim por uma semana, que logo virou mês, que de repente completou o ano. Seus vestígios já se misturavam à casa, e a mim. Uma camada de cinzas se acumulava nos cantos da cama, marcas na pele clareavam e voltavam a escurecer. E aquele vapor, que nas madrugadas claras, ficava verde como seus olhos.

Comecei a trocar as combinações pretas e os cabelos presos por vestidos coloridos. Tomava longos banhos de espuma. Sorria para o espelho, para a janela dos vizinhos, para mim mesma. Dizem que ria mais alto - nunca prestei atenção. Sei que mudava o perfume para o surpreender. Pintava os olhos e esperava por ele.

Na noite de ontem tive muitos calafrios. Senti o calor pesado. Percebi que uma névoa se prendia em mim, novamente aqueles halos indissolúveis no ar. A lembrança reapareceu. O medo cortou minha respiração. Como que pressentindo, corri para ver as árvores na rua. Nenhuma folha se mexia nos galhos. *Os dragões não conhecem o paraíso, ele costumava dizer, sempre que eu perguntava sobre nosso futuro. Citava Caio Fernando Abreu, relia suas cartas para mim. Nessas noites, gritava em seus pesadelos. Eu fingia não saber. Agora, como você deve imaginar, amanheceu e ele não veio. E nunca mais virá. Então, imagino, recorrendo à sua própria leitura, será que *um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não o ter, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo?


PS: Esse texto foi minha colaboração feminina, e também minha estréia, no Haja Saco. Como já disse a eles, foi uma honra aparecer ali no meio de tantos e diversificados talentos masculinos.

posted by Simone Iwasso
11/26/2007 12:18:00 AM

17 Comments:

Anonymous Fabio Chiorino said...

prazer foi todo nosso, Simone. E o repeteco será mais do que bem-vindo. Beijão e valeu!

11:32  
Anonymous Eder said...

Oi Simone. Li seu texto no Haja Saco e vim aqui conferir outros escritos. Gostei muito do que li. Abraço.

13:54  
Blogger Simone Iwasso said...

fabinho, obrigada outra vez. quanto ao repeteco, é só me dar o deadline que eu mando (já percebeu que eu só funciono com prazos! precisa me pautar!)

eder, obrigada pela visita e pelo elogio. volta sempre que será super bem-vindo

14:15  
Blogger S&amp;P said...

Oi, Simone!

Não conseguimos combinar aquele café. É que nunca saí tanto para a rua como nos dias que antecedem o lançamento do meu livro (hoje, inclusive, saio em pauta). Mas espero q gente se encontre (e se conheça!) hoje lá na Livraria da Vila.

11:15  
Blogger F. S. Júnior said...

"Quando saciou a fome, queimou meu útero com seu sangue branco e morreu dentro de mim."

o texto todo ficou muito bom, mas esta imagem em especial me cativou mais... achei forte...

beijos

12:29  
Blogger Emiliano said...

Como tu sabe, eu nunca li Caio Fernando Abreu, então nem sei se tem a ver ou não. Gostei, um pouco menos da parte que o comentarista anterior gostou, que eu achei que meio sobrava. Mas massa mesmo.

13:10  
Blogger Simone Iwasso said...

brigada, júnior, era para ser forte mesmo a imagem!

emi, quanto a vc, vou considerar, mas vindo de quem se recusa a ler caio f., encarei tudo como um elogio!

13:45  
Blogger Simone Iwasso said...

vinícius, faz quatro dias que to em casa com problema de coluna,mas vou tentar mesmo ir hoje, mesmo que bem rapidinho! beijo e super parabéns pelo livro!

13:46  
Anonymous paulo dauria said...

Excelente!

Imagens fortes, atmosfera inebriante.

Beijos

16:56  
Blogger Ilis said...

parabéns pela estréia, si.
menina, tu tá bem?
se cuide!
beijo!

17:01  
Blogger Renata Oxendorff said...

Si, comprei esse livro do Caio Fernando há um mês e não consegui parar pra ler. Tinha até esquecido. Que bom que me lembrou... Vou lá agora! rs

Parabéns pelo texto.

Beijos,

reox

22:29  
Blogger Rê Piza said...

Já comentei no Haja mas passo aqui pra reiterar: lindo texto, Simone! E concordo com o Junior: a frase "Quando saciou a fome, queimou meu útero com seu sangue branco e morreu dentro de mim" é minha predileta. Constrói a imagem de maneira forte e bela.
Beijos!

00:30  
Blogger Simone Iwasso said...

renata, lê o caio f. eu, pelo menos, gosto muito - principalmente dos contos...

rê, valeu mesmo, brigadíssima. e adorei ter te conhecido sem querer!

ílis, gatinha, brigadim. já to melhorando...

01:08  
Blogger pésVirados _| |_ said...

Texto forte, gostei bastante.
O lance de algo/alguém conduzir nosso dia-dia sem darmos conta... e quando percebemos já fazer parte da rotina. Fantástico. E como lidar com essas perdas?
Beijo.

20:23  
Blogger Rê Piza said...

Eu também, mulher, adorei te conhecer sem querer! Aliás, já passou muito tempo mas nunca é tarde: parabéns pelo uso que vc fez daquelas infos. A matéria ficou show de bola!
Beijos

08:37  
Blogger Bru said...

comentei no blog do hajasaco, mas resolvi passar aqui e gostei tbm!

ótimo texto!

beijos

13:27  
Blogger Simone Iwasso said...

valeu, bru, obrigada e volta sempre que quiser!

12:13  

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