Locutorio: O retorno
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O retorno

15.1.08



Ela não sonhava desde o dia em ganhou o caleidoscópio de vidrilhos coloridos. Ali, com o olho esquerdo fechado para deixar toda a concentração nas formas que o direito via, sentiu uma vertigem rápida. No minuto seguinte, tinha esquecido como se faz para sonhar. Não era nenhuma menina que ainda aprendia a arte durante a noite. Já tinha passado por muitos meses comemorativos, e neles, por diversos pesadelos, que anotava num papel com linhas, para passar o susto. Mas desde esse dia, só acordada, girando o objeto lentamente com as mãos, conseguia um mínimo de devaneio. Mesmo assim, repetido, cada vez mais entediante com o passar os dias. O poder de criar do concreto é limitado, por mais bonito que seja. A estética encanta, mas acaba inevitavelmente tornando-se repetitiva.


Foram cinco anos de noites sem nuvens. Sem pensamentos dentro de seus olhos fechados, sem criação de cidades, praias, pessoas, viagens, medos e fantasias. Quando abriu os olhos hoje, lembrou-se de uma ponte. De neblina clara. Garoa. Passos de pedestres. Pipoqueiro com os vidros do carrinho molhados. Recordou um diálogo, um rosto feminino. Eufórica, pulou da cama, puxou as cortinas, abriu as janelas. Uma tempestade inundava a cidade. No banheiro, de frente para o espelho da pia, viu a imagem completa: sonhara que percorria a cidade debaixo de um guarda-chuva sem tela.

posted by Simone Iwasso
1/15/2008 07:56:00 PM

14 Comments:

Blogger F. S. Júnior said...

a beleza dos sonhos é algo sem igual e o melhor... nunca cansa...

21:12  
Blogger Mike said...

Bastante cinematográfico esse tema para um curto curto... molhar-se através de um guarda-chuva sem tela... me fez pensar sobre como por vezes queremos tanto ousar, fugir, deixar-se molhar e entregar-se para o que a chuva venha a trazer nas suas gotas múltiplas de chuva, mas ao mesmo tempo também queremos a estrutura (mesmo q ela não proteja, como a armação do guarda-chuva sem a tela), ao menos ela está ali nos remetendo a um pingo de segurança... desculpe a viagem.
Grande abraço

09:11  
Anonymous Fabio Chiorino said...

Simone, coisa mais bonita de se ler. Mérito seu em criar de forma breve um realismo fantástico. A foto casa perfeitamente (é belíssima). Daria uma ótima história no Festival do Minuto.

09:13  
Anonymous Chiorino said...

caramba, Mike. Pensamos juntos enquanto escrevíamos em janelas diferentes. Vamos inscrever a Iwasso no Festival? rsss

09:15  
Blogger Renata Gervatauskas said...

Ameeeei! Si-Si, o roteirista da nossa vida tá de férias, mas vc tá com idéias ótimas!

Beijocas

reox

10:36  
Blogger Simone Iwasso said...

não, francisco (há), nunca, porque são sempre novos, mesmo quando repetidos, nunca são os mesmos


mike e fábio, obrigada pela leitura dos dois, tão aproximadas. homens visuais, vamos fazer um curta?

rê, a gente faz o que pode, e ainda mais nas vidas virtuais que a gente cria, né?

13:01  
Blogger Robertson said...

Conhecemo-nos [virtualmente] por conta de uma feliz coincidência de "Locutórios" e hoje sou um fã de teu trabalho, que sempre leio e indico.

Que 2008 seja, de fato, um ano repleto de novos projetos e de muita literatura para todos nós.

E o teu livro, quando sai das gavetas da tua criatividade sem fronteiras? :)

Do fã portoalegrense,
Beto
Robertson Frizero Barros

13:59  
Blogger Simone Iwasso said...

Beto, estou com material pronto, falta achar quem queira me publicar! Um beijo!

14:50  
Blogger katherine funke said...

conto ótimo pra começar o ano. de sonho! de chuva! de caleidoscópio e de despertar.

e o anterior (o diálogo) está maravilhoso. que "homens melhores já tentaram isso, em vão" - isso me consola...

p.s.: obrigada por passar lá no notas mínimas. volte sempre!

15:08  
Blogger Simone Iwasso said...

katherine, o prazer em passar lá é totalmente meu! eu volto sempre já, mulher ;-)

18:22  
Blogger Lucy said...

Belo texto!
dá vontade de ler mais...
bjim

14:43  
Blogger Simone Iwasso said...

obrigada lucy. volta sempre!
um beijo!

14:53  
Blogger Paulo D'Auria said...

Puxa, Simone, linod, lindo!

E de quebra, este resumo do drama que todo artista enfrenta "O poder de criar do concreto é limitado, por mais bonito que seja. A estética encanta, mas acaba inevitavelmente tornando-se repetitiva."

Parabéns!

15:20  
Blogger Simone Iwasso said...

obrigada paulo. como artista, vc também entende, é claro!

19:23  

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